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O despertar da beleza esquecida
Sex, 28 de Junho de 2019 15:36

Julião Guerra*

 

Em uma manhã, enquanto atendia em um ambulatório do setor público, percebi que uma paciente, acompanhada de sua filha, observava atentamente o meu trabalho. Ela sorriu e disse: “Eu acho muito bonito um médico trabalhando”. Eu ponderei então que às vezes a força corrosiva da rotina, com suas dificuldades, limitações e o cansaço decorrente das jornadas de trabalho extenuantes, nos torna tão entorpecidos e insensíveis que podemos até mesmo perder a capacidade fundamental, elementar e indispensável de perceber e admirar a beleza daquilo que fazemos em nossas atividades cotidianas.

Ser o portador de um conhecimento que pode curar, aliviar o sofrimento ou, pelo menos, consolar confere uma dimensão singular ao fazer técnico e profissional da medicina. No ato médico deve-se buscar, entre outras coisas, a dimensão estética, a beleza do trabalho executado com a maior perfeição e exatidão possíveis, dentro das condições objetivas nas quais o profissional atua. Uma anamnese bem conduzida, que construa um caminho seguro para se chegar a um diagnóstico preciso, e uma prescrição enxuta, com o mínimo de medicação necessária para se alcançar objetivos terapêuticos bem definidos, são muito mais que realizações de conteúdo estritamente técnico: são atos revestidos de beleza.

Tudo isso sem nunca perder de vista o principal: ali se encontra uma pessoa em busca de ajuda, com toda a complexidade que caracteriza um ser humano, portador de um patrimônio comum a toda a humanidade e, ao mesmo tempo, de uma singularidade que o diferencia de todos os demais seres de sua espécie. É o significado profundo desse encontro que nunca deve ser esquecido pelo médico. Mesmo quando nosso trabalho tiver de ser desenvolvido em condições adversas ou precárias, ainda nos restará a beleza de fazer o melhor possível com os recursos que estão ao nosso alcance.

Na história da medicina não existe ato isolado. Não se deve perder de vista que cada ação transcende o meramente imediato e circunstancial e é parte integrante de um contexto maior. Cada médico representa todos os médicos. Cada médico é, de certa forma, todos os médicos, e cada ato médico se insere no conjunto maior da tradição da medicina que permeia o tempo e atravessa milênios de história. Ao mesmo tempo que pertencemos a uma tradição, também dela somos construtores, na medida em que, na experiência imediata de várias pessoas, somos nós os seus representantes visíveis e concretos. Daí decorre, para cada um de nós, uma responsabilidade que possui um caráter pessoal e intransferível, de tal maneira que tudo devemos fazer para ser dignos da tradição da qual fazemos parte.

As palavras daquela pessoa, naquela manhã, a respeito da beleza do trabalho do médico tiveram o efeito revelador de lembrar-me de uma verdade obscurecida e submersa na faina rotineira diária. Elas não apenas iluminaram poderosamente o meu trabalho naquele momento, mas também ecoam constantemente no meu dia a dia de médico, lembrando-me permanentemente daquilo que cada um de nós jamais deveria esquecer nem sequer por um segundo: a importância, a utilidade e a beleza de nosso trabalho, quando o desempenhamos com dedicação, compromisso e compreensão de sua profunda dimensão humanitária.


* Possui título de especialista em dermatologia pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) e foi diretor da VI Gerência Regional de Saúde (VI Geres) da Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco.

  

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